I – Presente: Ponto de Rutura

Temos agora ao alcance possibilidades de vida com que os mais utópicos dos nossos antepassados apenas puderam sonhar. A outrora tão ambiciosa ideia de uma civilização de pleno desenvolvimento, em que máquinas autónomas fariam todo o trabalho necessário enquanto as pessoas apreciariam ociosamente os dias, ou, quando e como quisessem, se entregariam ao aperfeiçoamento pessoal, à participação na sociedade, às artes ou às ciências já é em grande parte realizável, e sê-lo-á totalmente em muito menos do que o tempo de uma geração.

Potenciando o nosso trabalho mais e mais ao longo de séculos, as máquinas trouxeram-nos aonde estamos. Tratores nos campos, grandes mecanismos nas fábricas, pequenos aparelhos nos escritórios, eletrodomésticos nas habitações: em quase tudo o que fazemos temos tido ajuda de máquinas. Mas a sofisticação destes equipamentos tem crescido sempre e, recentemente, essa evolução trouxe-nos os primeiros que em vez de apenas ajudar nos substituem já totalmente em certas tarefas. Por agora, isso está a acontecer em caixas de supermercados, bancos ou portagens, em trabalhos industriais repetitivos e noutras operações rotineiras. Porém, estes novos aparelhos autónomos são ainda um ensaio tímido antes do salto gigantesco que se lhes segue na evolução das máquinas. Tal salto chama-se inteligência artificial, e está a ser dado agora mesmo.

A inteligência artificial é o avanço de qualidade que fecha um longo período em que o progresso técnico se fez por meros avanços de grau. Graças a ela começamos a ter as primeiras máquinas capazes de nos substituir com vantagem nos trabalhos já pouco ou nada rotineiros de contabilistas, jornalistas, advogados, camionistas, médicos, informáticos, professores e praticamente quaisquer outros. É certo que isto vai mudar rápida e profundamente o modo de vida que conhecemos, mas que sentido terá a mudança? Iremos viver a utopia de um mundo sem trabalho por necessidade e, em vez dele, de satisfação material e liberdade de ocupação para todas as pessoas? Talvez sim, talvez não.

“A ociosidade é mãe de todos os vícios; o trabalho, pai de todas as virtudes”. Esta ideia, nascida do pensamento religioso na Idade Média europeia, espalhou-se pelo mundo e ainda hoje prevalece nas mentalidades um pouco por todo o lado. “O mérito vem do suor e das dores, do sacrifício representado pelo trabalho, pouco importa se útil ou não, desde que esforçado”. A cultura do mérito pelo sacrifício é um fator de grande incerteza no futuro que estamos a abrir. Ela não travará o avanço da inteligência artificial, mas pode impedir-nos de o aproveitar a nosso favor. Inevitavelmente, o domínio pelas máquinas de atividades que antes eram exclusivamente humanas obriga-nos agora a escolher entre realizar ou recusar a utopia, entre agarrar a liberdade de (des)ocupação para todos ou sujeitar ainda o pão e o teto ao suor e às dores de quem precise de os garantir.

A primeira escolha – realizar a utopia – impõe-nos uma transformação interior, sem a qual não saberemos acolher a liberdade e o ócio, principalmente a liberdade e o ócio dos outros. Será um processo difícil, como costumam ser as mudanças.

Por outro lado, e na prática, a alternativa significará para os que não tenham fortuna nem trabalho a dependência de subsídios condicionados a provas de “mérito”, a que terão de corresponder frequentando os cursos de formação profissional que lhes sejam prescritos, mesmo que inconsequentes; permanecendo disponíveis para todos os empregos, mesmo que inexistentes; comparecendo aos controlos burocráticos dos serviços sociais, mesmo que indignos; adotando os comportamentos que mais agradem aos seus funcionários, ainda que humilhantes. É claro que isto, por si, não é novidade: os requisitos de acesso a subsídios nos programas de “apoio ao emprego” e à “integração social” sempre foram deste tipo. A novidade estará no contexto e na escala: à medida que mais e mais profissões forem sendo ocupadas pelas máquinas, mais e mais pessoas se terão que sujeitar a condições assim para sobreviver. O custo da sua subsidiação será cada vez maior, e terá que ser suportado pelos impostos de cada vez menos contribuintes: as últimas pessoas com lugar na economia produtiva. A desigualdade extremar-se-á entre aquela maioria subsidiada e esta minoria privilegiada, e ainda assim todos permanecerão iguais em insatisfação; os primeiros sentindo-se cidadãos descartados e os segundos contribuintes confiscados. A tensão social será pesada, a economia doente e as contas públicas ingeríveis. Esta sociedade terá abundância, sim, mas para muito poucos, e não terá verdadeira liberdade para ninguém. O ambiente geral será desumano e de catástrofe permanente, com a tecnologia como recurso sempre à prova na contenção das pessoas e, ao mesmo tempo, todos os efeitos das alterações climáticas em crescimento. Mais: neste ambiente em tudo extremado, necessariamente se extremarão também os piores traços do nosso atual sistema socioeconómico – a competição, o individualismo e o materialismo.

Porém, a chave para a construção de uma sociedade funcional, harmoniosa e humana sempre esteve, e mais do que nunca está agora também, neste novo contexto que a inteligência artificial e as alterações climáticas nos trazem, no primado dos valores contrários: a cooperação, a solidariedade e a partilha.

O percurso da nossa história trouxe-nos até aqui a meio de uma encosta. Agora, o caminho separa-se em dois. Um, áspero e exigente, rasga rocha virgem em direção ao topo. É o que nos pode elevar ao ar fresco, às vistas amplas, ao espaço largo e luminoso. O outro caminho, de muito batido, pode para já parecer-nos mais macio. Descaindo suavemente, ele leva-nos contudo ao vale em baixo, profundo, sombrio, de vistas tapadas e ar saturado. Temos de escolher um deles porque a história não parará. Subir exige mais – mudarmo-nos é difícil. Para descer basta-nos a inércia – manter hábitos e repetir receitas velhas nos problemas novos. Mas os prémios de subir ou descer também são muito diferentes. Ousaremos enfrentar o desafio do novo e desconhecido na subida? Resignar-nos-emos em vez disso ao aparente conforto do que em baixo temos por familiar? A escolha é coletiva, diz-nos respeito a todos e este é o momento de a fazermos.