II – Passado: da Economia Ancestral ao Capitalismo

Os grupos tribais, em que todos os homens e mulheres viveram ao longo da maior parte do tempo que a humanidade tem na Terra, desde sempre funcionaram pela cooperação solidária dos seus membros em tarefas como obter e distribuir alimentos, construir abrigos e habitações familiares ou cuidar de patrimónios comunitários; tarefas que hoje diríamos “económicas”. De facto, ao longo de centenas de milhares de anos toda a nossa economia foi cooperativa e solidária. E ela estava, então, em harmonia com o meio ambiente. Foi somente há cerca de 6.000 anos atrás que este estado de coisas começou a mudar, quando as primeiras civilizações sofisticadas surgiram e puseram em prática formas novas de organização económica: da variedade de sistemas tradicionais baseados na agricultura ou no comércio até, mais tarde, aos feudalismos, mercantilismos e tudo o mais que se seguiu. Hoje, porém, a diversidade económica que existiu ao longo destes 6.000 anos está praticamente anulada, e um modelo (quase) único voltou a consolidar-se. Chama-se capitalismo, e dura há pouco mais de 200 anos.

Enquanto as práticas económicas ancestrais assentavam na cooperação solidária entre pessoas, na harmonia entre elas e a natureza e numa orientação para a mera satisfação das suas necessidades, o capitalismo caracteriza-se pela competição entre pares, pela predação da Terra e pela orientação dos seus agentes para uma acumulação material sem limites. Em comum, os dois modos têm o facto de serem hegemónicos, cada um no seu tempo, mas quanto a tudo o resto é difícil encontrar realidades mais opostas.

Irá, como a sua forma homóloga ancestral, também o atual capitalismo durar centenas de milhares anos? Não parece possível, visto o estado em que deixou o planeta e as pessoas ao fim de apenas duzentos. Os solos, os rios, os oceanos e a atmosfera da Terra estão hoje impregnados com os venenos libertados pela nossa atividade; os elementos em desequilíbrio; o clima a mudar e a vida, como até aqui a conhecemos, condenada caso não façamos rápidas e profundas mudanças. Quanto a nós, humanos, assimilámos o espírito do materialismo e esquecemos o que realmente somos e podemos alcançar: a natureza de criadores que nos impele a gerar arte, matemática ou filosofia; o nosso potencial para a liberdade, para escolher rumos mudando-nos a nós mesmos e ao mundo conforme decidimos fazê-lo; a inexistência de qualquer barreira natural entre o que somos e aquilo em que nos podemos tornar ou realizar. Esquecidos de tudo isto, assumimos hoje os nossos papéis na economia e reduzimo-nos a eles, chegando nisto ao ponto de nem sabermos já se, ao substituir-nos naqueles papéis, não estarão a inteligência artificial e os robots a esvaziar de sentido a nossa própria existência, conforme se vê hoje, e cada vez mais, ser afirmado e discutido… É do nosso atual sistema e cultura económicos a inteira responsabilidade por nos desvalorizarmos tanto.

Ainda assim, e apesar dos seus lados sombrios, pode atribuir-se ao capitalismo um mérito importante: com a demanda pela acumulação e pelo lucro, ele deu-nos a maquinaria, a técnica e o conhecimento que agora nos podem permitir dispor dos recursos necessários ao conforto material de todos. Porém, esta é apenas uma possibilidade, porque embora essas máquinas, técnica e conhecimento nos deem a capacidade, por si só elas não garantem que a venhamos a usar.

O futuro é insondável. Virá como resultado de uma infinidade de escolhas e ações, conscientes e involuntárias, tomadas por biliões de indivíduos e grupos, num movimento geral caótico que ninguém pode controlar ou prever. Ainda assim, pode sentir-se que o capitalismo apenas terá algum sentido na nossa história se o preço imenso que nos cobrou e cobra vier a ter como resultado a satisfação material assegurada para todos. Assim, e só assim, poderá vir a ser visto como processo de nos elevarmos a um patamar civilizacional superior, como meio de um verdadeiro progresso. A grande questão do presente é assim a de saber como concretizar este potencial que o capitalismo já nos oferece. Do simples desenvolvimento da economia, como a temos, não parece poder sair a solução. A realidade mostra-nos à exaustão que o mero “crescimento”, sem alguma inovação qualitativa na lógica e nos processos atuais, somente nos pode oferecer mais do mesmo. Nem o reforço do chamado Estado Social, no seu formato tradicional, burocrático, oneroso, controlador das vidas dos seus beneficiários, nos poderá elevar de onde estamos. Mitigará a pobreza como tem feito, mas não mais. E continuará, entretanto, a cobrar o seu preço duplo: em dignidade, para aqueles a quem oferece assistência, e, em consequência disso, em humanidade para todos os outros. Ora, quanto mais desnecessário isto se torna mais intolerável fica.

Cada um de nós, rico ou pobre, direta ou indiretamente, sofre hoje com a falta de uma garantia de acesso ao essencial para todos. É claro que este não é já um problema de capacidade de produção, mas sim de organização da economia. Não é inerente ao capitalismo qualquer solução para a satisfação universal das necessidades materiais básicas, e jamais foi adicionado ao sistema um processo com essa finalidade e resultado. Contudo, sem isso nunca nos livraremos da ameaça da escassez material e, consequentemente, desta cultura de querer-sempre-mais em que nos encontramos, essencialmente reduzidos a produtores e consumidores, competidores e juízes dos “méritos” uns dos outros, esgotando nisto a energia que, de outro modo, poderíamos dedicar às ocupações mais elevadas que o nosso potencial reclama para nós.

E, no entanto, podemos já hoje introduzir um tal processo de garantir o essencial a todos.  Recuperemos, para isso, do nosso modo económico ancestral o seu elemento essencial: a solidariedade entre pessoas…